quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sonata para o Fim dos Tempos



A verdade se revela no silêncio
O silêncio tem uma maneira de falar
A música emudece a linguagem
Revelando os segredos do Universo
Sem que os pensamentos precisem se pronunciar.

Sem a música a vida não seria um erro, meu caro Nietzsche,
Pois sem música não existiria Vida
Não há que não fixe as feridas das lembranças
No compasso de uma sublime melodia.

Não importa se os intervalos da nota da canção
Representam as indecisões da existência
O som que se perde no fluxo do tempo
Abocanha o intervalo da nossa limitada consciência.

A música não trata da sua mísera alegria
Muito menos da minha irrisória tristeza
Ela, apenas, acalanta as almas dilaceradas
Revelando-nos a implacável voz da Natureza.

Seria a música a linguagem do Divino?
Ou a máxima expressão do Nada?
O que eu sei é que essa bela menina,
Que nunca mostra sua forma aos homens,
Compõem as sonatas para o fim dos tempos
De costas para a humanidade.

E o coro das vozes angustiadas
Unem as múltiplas individualidades
Ditando aos ouvidos humanos
As verdades insanas da metafísica ocultada.

Perdoem-me grandes sábios da ciência
Mas a lógica é o dessabor da vida
Pois é na ilimitada arte dos sons que percebemos
A máxima expressão de toda e qualquer filosofia.

É impossível não dançar a sinfonia do Destino
Embriagando-se na alegria e na tristeza de Dionísio,
Que pega emprestada a lira de Hesíodo,
Pra anunciar a humanidade o absurdo que é a Vida.

E a cada compasso diariamente executado
Anuncia-se o preâmbulo do réquiem para a morte
A finitude vai marcando os segundo que lhe restam
E a fatalidade vai mostrando o que a racionalidade ignora

E a harmonia da opereta anuncia a grandiosa tragédia,
Reconhecendo todos os risos, satisfações e descobertas.
E a comicidade da existência revela-se na completa falta de sentido,
Pois nas profundezas do seu Ser sempre ecoara o pessimismo.

Cantarolar o absurdo não significa cortejar o desespero
Desesperador é acreditar em um eterno recomeço,
Como se a melodia da sua vida não fosse o resultado do seus feitos,
Sejam eles nobres, indignos, belos ou feios...

Finda-se, com o tempo, o último lampejo de consciência...
E na vitrola toca a sonata para o fim dos tempos.
O mundo desintegra-se com o padecimento do sujeito
E a eternidade se faz presente na interioridade do silêncio.

E o silêncio é o reinado dessa bela menina,
Reflexo convexo da incomensurável Natureza.
Que mostra a verdade na epifania da dúvida,
Pois a realidade que não aparece é o que batizamos de Música.


4 comentários:

  1. Nossa, Zé! Muito, muito bom o texto =) Merece ser lido e relido, pensado e repensado. Parabéns!

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  2. Obrigado Beatrice. Leia e releia, pense e repense quantas vezes quiser. Eu também faço isso.(risos)

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  3. Um belo texto meu querido amigo, nos leva a uma boa reflexão. Acho legal a maneira como você fala da música, parece que ela é a "Senhora" da tua vida.
    Tua sensibilidade misturada a imensa racionalidade que tens (riso), são dois atributos que lhe caíram sob medida. Adorei sua poesia Zé, beijos!

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    1. Fico feliz que tenha gostado. Acho que esse seja o texto que mais me vejo. Talvez seja exatamente porque acho que a música é, sem dúvida, a máxima expressão da vida. Obrigado pelos comentários sempre elogiosos. Beijos!

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