Como
assinalou Sartre, em seu livro Entre quatro paredes, "O inferno são os
outros". Quase sempre caímos no erro de agirmos para nos
desvencilharmos do julgamento alheio. O Outro geralmente assume o papel de
Grande Inquisidor da humanidade exigindo uma razão convincente que justifique
aquilo que sentimos e fazemos. Por que devemos apresentar motivos que convençam
as pessoas daquilo que somos, não somos, e queremos ser? O julgamento moral das
pessoas possuem tanto peso assim sobre as nossas vidas? Quem foi que disse que
necessitamos de uma justificativa pra viver?
A preocupação excessiva em vestir a camisa de força da
convenção pode nos levar a cometermos o desatino existencial de não nos
pertencermos; de vivermos encarcerados na prisão da imagem que a moralidade
exige que criemos; de cometermos suicídio - mesmo sem o padecimento do corpo - ao abnegarmos dos prazeres e desprazeres de sermos que somos. Hipotecar
a nossa própria vida em nome de Deus, das expectativas dos pais, de um
relacionamento amoroso, ou qualquer outra força externa, é o maior dos crimes que
podemos cometer contra a nossa própria humanidade; contra a nossa própria
interioridade.
A cada bom dia pronunciado ao outro forçado; a cada beijo
na boca sem paixão; a cada gargalhada sem graça, a cada silêncio da alma
engolido no seco; a cada repressão para consigo mesmo, abdicamos o estatuto de
Senhores de si para nos perdemos na democratização forjada da nossa própria
pessoa. Olha agora para o espelho que reflete a tua alma e pergunta-te em
silêncio sem rodeios: é isso mesmo o que eu quero? Refaz a pergunta agora em
alto e bom som: É ISSO MESMO O QUE EU QUERO? Tu vives nos devaneios felizes dos
teus sonhos ou fragmenta-te na tristeza da falta de sentido do mundo?
Eu sei... Eu sei... Essas perguntas fazem a gente sentir um enjoo nauseante na boca do estomago; uma súbita tontura pela velocidade do giro do mundo; uma leve perda dos sentidos devido ao tapa na cara que recebemos da consciência. Esses, porém, são sintomas inevitáveis para quem pretende provar do mundo, ao invés de provar para o mundo.
Essa prova colega, repito, é o maior dos crimes, é o grande
erro, é o pior dos enganos. Afinal, não enfrentar as afrontas do mundo é, no
fundo no fundo, evidenciar o medo do julgamento alheio e o pavor de assumir o
trono do reinado do seu ser. Quer provar o verdadeiro sabor que a vida possui
sentindo os doces e amargos que as circunstâncias nos deixam no canto da
boca?
Deixe de enxergar a vida como um tribunal. Os juízes da
vida, os donos da moralidade, os panfletários dos bons costumes, os
hipócritas da existência, já te condenaram desde o dia do teu nascimento. E não importa a
grandiosidade e beleza dos seus feitos, existirá sempre alguém insatisfeito, com
um dedão apontado para a sua face, ditando as verdades cristalizadas que
nasceram com o assassinato da possibilidade, com o receio do diferente, com o
medo do reencantamento de si.
Nesse mergulho no mar da existência de águas turbulentas -
devido a esse eterno conflito entre o nosso querer e a convenção - existem duas
alternativas: ou chorar por dentro para receber os aplausos forjados do público, que se deleita com o fim daquilo que você poderia ter sido, ou rir da cara de
espanto dos ressentidos que vaiam os seus autênticos passos nessa terra de
pássaros engaiolados.
Eu prefiro sorrir... E voar... E você o que prefere?
É meu estimado Sartre, o inferno realmente são os outros.
A culpa, porém, de não nos pertencermos é nossa, somente nossa.
Ao menos é esse o veredicto anunciado pelo Tribunal da Consciência.
