terça-feira, 17 de julho de 2012

Retalhos de um Poeta


Respeitável público!
Sou mais um louco poeta andarilho,
Faço da arte o meu único vício
E dos meus versos um eterno ofício.
Utilizo o palco como abrigo e cobertor,
Às vezes choro de verdade com a encenação do ator.
Porque sei que por de trás de cada personagem
Há um singelo ser humano 
Que cifra vontades e alimenta sonhos.

Mas o que eu quero dizer,
É que independentemente do sentimento de solidão.
E de diversas vezes receber um não!
Levo a possibilidade do impossível ao meu simples coração.
Que necessita cantar, dançar, declamar, contemplar e encenar
Para vários outros corações emocionar. 

E entre as várias mentiras da arte uma verdade irei contar:
Nós artistas usamos a arte simplesmente para desabafar.
E pra quem não entendeu minha conversa cumprida 
E quiser saber quem eu sou,
É só lembrar que entre luzes e palco, platéia e espetáculo,
Revela-se ao mundo um novo e desconhecido ilustre compositor.

Que entre poesias e prosas têm sempre uma história a contar.
E é sobre o Poeta e os seus Retalhos que eu irei relatar.

Esse Senhor das palavras mistura louca e lucidez
Romantizando o mundo por completo
Tirando toda a sua palidez

Assim como as tintas que se espalham no ateliê
Deixando a naturalidade do humano-pintor
Que transborda em cores florescer.

Ao compasso da música imaginária
Tocada ao som do piano, violino e violão.
Pois a trilha sonora da existência 
É composta por harmonias, melodias e ritmos,
Impostos pelo som do coração.

Cada arte proclamada no verso
Faz-se por inteiro um pedaço de mim.
E toda essa imaginação potencializada
É, apenas, o remédio momentâneo
Para expulsar a dor do mundo que mora dentro de mim

Mas, para que vocês contemplem os retalhos,
Lembrem-se é preciso sentir.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sonata para o Fim dos Tempos



A verdade se revela no silêncio
O silêncio tem uma maneira de falar
A música emudece a linguagem
Revelando os segredos do Universo
Sem que os pensamentos precisem se pronunciar.

Sem a música a vida não seria um erro, meu caro Nietzsche,
Pois sem música não existiria Vida
Não há que não fixe as feridas das lembranças
No compasso de uma sublime melodia.

Não importa se os intervalos da nota da canção
Representam as indecisões da existência
O som que se perde no fluxo do tempo
Abocanha o intervalo da nossa limitada consciência.

A música não trata da sua mísera alegria
Muito menos da minha irrisória tristeza
Ela, apenas, acalanta as almas dilaceradas
Revelando-nos a implacável voz da Natureza.

Seria a música a linguagem do Divino?
Ou a máxima expressão do Nada?
O que eu sei é que essa bela menina,
Que nunca mostra sua forma aos homens,
Compõem as sonatas para o fim dos tempos
De costas para a humanidade.

E o coro das vozes angustiadas
Unem as múltiplas individualidades
Ditando aos ouvidos humanos
As verdades insanas da metafísica ocultada.

Perdoem-me grandes sábios da ciência
Mas a lógica é o dessabor da vida
Pois é na ilimitada arte dos sons que percebemos
A máxima expressão de toda e qualquer filosofia.

É impossível não dançar a sinfonia do Destino
Embriagando-se na alegria e na tristeza de Dionísio,
Que pega emprestada a lira de Hesíodo,
Pra anunciar a humanidade o absurdo que é a Vida.

E a cada compasso diariamente executado
Anuncia-se o preâmbulo do réquiem para a morte
A finitude vai marcando os segundo que lhe restam
E a fatalidade vai mostrando o que a racionalidade ignora

E a harmonia da opereta anuncia a grandiosa tragédia,
Reconhecendo todos os risos, satisfações e descobertas.
E a comicidade da existência revela-se na completa falta de sentido,
Pois nas profundezas do seu Ser sempre ecoara o pessimismo.

Cantarolar o absurdo não significa cortejar o desespero
Desesperador é acreditar em um eterno recomeço,
Como se a melodia da sua vida não fosse o resultado do seus feitos,
Sejam eles nobres, indignos, belos ou feios...

Finda-se, com o tempo, o último lampejo de consciência...
E na vitrola toca a sonata para o fim dos tempos.
O mundo desintegra-se com o padecimento do sujeito
E a eternidade se faz presente na interioridade do silêncio.

E o silêncio é o reinado dessa bela menina,
Reflexo convexo da incomensurável Natureza.
Que mostra a verdade na epifania da dúvida,
Pois a realidade que não aparece é o que batizamos de Música.


terça-feira, 3 de julho de 2012

A Cor da Vida


Não sei se é sonho ou realidade, mas estou diante de um fato:
Tiraram as cores do mundo, nada reluz está tudo opaco
O homem parece cansado e a Natureza perdeu a altivez
Acabou-se o brilho do mundo diante da minha lucidez
O vermelho da rosa da moça já feneceu de paixão
Transformou-se em plena amargura, alojou-se em meu coração
Quem viu o azul da esperança rebrilhando na cor do irmão?
Quem encarou o Destino sem a cor da alegria na mão?
Talvez a "sacada" da vida seja saborear a doce solidão
Que só é sentida no escuro, sem barulho, longe da multidão.
Intuí o vazio existente que abriga a morada do Ser
É como ver o poeta assistindo diariamente a palavra morrer
Já cansei da ausência de cor existente na vida que passa
Transfiguro os meus sentimentos nessa pulsão que não cessa, não passa
Libertei o artista, o pintor,
Sou o meu Deus potencial criador
Que não racionaliza os caminhos traçados
E em meio de tintas e telas,
Sou eu quem atribui cor deixando ou não a vida bela!


segunda-feira, 2 de julho de 2012

A Bailarina e a Morte


A bailarina rodopia o seu mundo intuindo vazio e solidão
Sentindo a leveza dos passos ao compasso do velho coração
O seu corpo vive o conflito existente entre desejo e razão
Flutuando na ponta dos dedos ela gravita entre a dor e a paixão

A bailarina rodopia o seu mundo ao compasso da bela Natureza
Sentindo a finitude da existência movimenta-se como as borboletas
Dançando ela percebe que a essência da vida é movimento
Desafiando a gravidade ela sente o seu corpo ir de encontro ao vento

A bailarina rodopia o seu mundo dançando entre sonho e convenção
O inconsciente freudiano diz: sim! A moralidade, como sempre, diz não
E talvez a vida resuma-se a esse eterno e doloroso conflito
Entre encontrar o Eu no silêncio e se perder com o Outro no grito

A bailarina rodopia o seu mundo sabendo que a dor vai findar
Pois, o tango da morte um dia, todos nós iremos dançar
Já que vamos cair em um abismo
Responda a si mesmo porque não dançar?

O Fim do Teatro como Arte.

Nessa Sociedade do Espetáculo
Foi decretado o fim do teatro como arte
A plateia está vazia,
O texto não rima com poesia
E não emanam do ator dor ou alegria.
Os diálogos são apáticos,
Os risos são forçados,
E os comportamentos são milimetricamente calculados.
Mataram a espontaneidade da existência,
Em prol dos valores e da rotina,
Que encobre a beleza da noite,
Com um sol artificial que não aquece e ilumina.
Todos vestem um figurino sem graça
Pra se adequar a cada palco exigido.
Infelizmente é nesses passos que andam o mundo,
É exatamente assim que flui a vida.

Os atores em potencial sentem a dor corroer a alma,
Mas não é fácil romper as correntes de maldizer,
E dar vasão a essa pulsão irrefreável que habita a morada do Ser.
Que é Não Ser quando resolve ignorar o Destino,
Afastando-se da sua própria beleza,
Tornando o indivíduo que se opõe ao espelho
Desconhecedor de sua própria beleza.

E o riso do palhaço é espontâneo
Quando o ator não resolve atuar,
Quebrando a máscara que encobre o rosto,
Deixando o humano escondido se revelar.

Por isso faço do mundo o meu palco e procuro lembrar,
Que jamais devemos esquecer,
Que para os atores de verdade atuar e sinônimo de viver.

A dor do mundo ou a interioridade do artista



Eu sinto toda a dor e decadência do mundo em mim,
Como uma sucessão de desejos que não cessam e não tem fim.
E a existência de Deus já não habita e nem mora aqui,
Foi abortada como os olhos que padecem mesmo antes de abrir.


Sonhos, fé, amor e esperança já cometeram suicídio,
E a minha interioridade já se cansou de martírios e suplícios.
Os humanos indiferentes não se entregam, relutam as paixões;
 Nem percebem que dilaceram diariamente, suas almas, espíritos e corações.


Promover um mergulho interno exige não ter medo da solidão,
Mas é bem mais fácil sermos racionais do que dançarmos ao compasso do coração.


A própria Vida define-se como um teatro do absurdo,
Pois muitos "vivem" como cegos, surdos e mudos.
Renegam os artistas que adormecem no querer,
Sentem a dor do mundo nas entranhas, mas não assumem, preferem esquecer,


Que podemos modelar o Destino,
Recriando o Universo com um simples olhar,
É exatamente isso que faz o artista: apresenta o Belo pra não se cansar,
Desse marasmo que é a vida quando não resolvemos sair do lugar,
A mudança é a única permanência que não devemos deixar escapar.


Acordem pintores, atores, músicos, dançarinos e artesãos!
Acordem! Deem forma à vida, não a deixe desforme não.
Pois a morte não pede licença, não avisa e nem pede perdão.