Provavelmente você, que
resolveu visitar o meu blog, espera que eu
apresente uma descrição; uma percepção, um olhar sobre mim. Como explicar uma
existência inteira que, às vezes, não faz sentido nem para aquele que viveu e ainda não feneceu? O poeta pode falar da poesia que não escreveu? A mãe pode
amar o filho que não nasceu? O pintor pode usar da tinha que não conheceu? A
vida nem sempre segue a métrica da rima. A história quase nunca é linear. E se
a consciência humana simultaneamente dançar com o imaginário e o real,
misturando-se entre o que a memória guardou e esqueceu com que
propriedade posso afirmar aquilo que sou Eu? Desconfio que sei aquilo que não
sou. E mesmo que soubesse que diferença faria? A vida do autor determina a
beleza obra? Ou a exuberância da arte mata a individualidade do artista? Poderia
dizer que sou um romântico niilista que se depara com o absurdo da existência,
e procura nas Belas Artes e na filosofia um acalanto para alma, que contempla o mundo desprendendo-se das
contingencias. Por isso apresento meus devaneios mentais fugindo de qualquer descrição,
pois esta última palavra rima com conclusão. E
o único ponto final dessa oração é morrer! Mas, enquanto o tempo não
abocanha a finitude, vou preenchendo esse vazio com aquilo que me faz sentir
viver. Pois, com ou sem transcendência, não é isso que viemos aqui fazer?
quarta-feira, 14 de março de 2012
terça-feira, 13 de março de 2012
Ensaio de uma vida
TIC-TAC; TIC-TAC; TIC-TAC; TIC; TAC: O ponteiro do relógio marca 7 horas da manhã! Os raios de sol começam a aparecer timidamente diante do mundo; do nosso mundo. Os olhos da humanidade sedentos de prazer ainda ardem por conta da claridade de tal estrela. Logo na aurora um “profeta” destituído de sentimentos proliferou a seguinte idéia aos homens: a vida é um quebra-cabeça onde tudo se encaixa e para encaixarmos tais peças é necessário que sejamos práticos, lógicos e racionais. Destarte, se alguma coisa não der certo na sua vida não é porque não existe lógica na mesma, mas porque certamente os seus cálculos deram errado. Mas, não se preocupe quanto aos erros, afirma tal profeta, você ainda é jovem e possui muito tempo para aprender.
Ao ouvirmos sofismas de tamanho conforto ao nosso espírito e coração, começamos a somar desesperadamente na ponta do lápis tudo àquilo que pretendemos fazer durante o dia; durante a semana; durante o ano; durante décadas e por toda vida. Olhamos novamente para o ponteiro do relógio e, para nosso espanto, ele parece não andar. O tempo agora começa a pesar! E a cada segundo perdido ou vivido assistimos com os olhos cheios de sonhos e dor o “Senhor Tempo” sacrificar um dos seus filhos - o dia - e parir imediatamente um novo descendente. Apesar dos poetas- movidos pelos sentimentos mais puros e putos- gritarem desesperados que temos que viver um dia de cada vez preferimos impreterivelmente não dar ouvidos aos grandes gênios da humanidade - ou seja, aos filósofos, escritores , pintores, poetas, músicos, que deixaram a sua marca impressa sobre todo o gênero humano- tachando-os, assim, de loucos varridos que perderam a sanidade e o contado com a realidade. Os tenebrosos normais herdeiros de uma cultura racionalista e pragmática acreditam estarem com a razão e enganam-se afirmando em alto e bom som: “Temos todo o tempo do mundo”. A partir desse auto-engano deixamos o tédio invadir o nosso ego e passamos a sentir um vazio na alma ao assistimos diariamente o ritual impiedoso do Tempo de morte vida dos seus filhos. E eles - os dias - apesar de novos aparentam ser todos iguais. E apesar de estarmos - assim, como afirmou Heráclito - em um constante devir, nada parece se mover. O universo continua estático, assim, como um rio que não segue o seu curso em direção ao mar; como uma borboleta que não ver mais graça em dançar nos jardins sob o compasso da natureza; como um sábio perdido em suas próprias teorias, como um homem que não conhece a si mesmo.
Como sou um eterno romântico- assim, como Dom Quixote de La mancha- perdido nesse caos pós-moderno ainda acredito, ou teimo em acreditar, que a máquina humana é feita e movida de sentimentos. E se assim for sei que sentimos muito o fato de termos consciência de que podemos sentir; e sentir é sinônimo de viver. Para nós, os cavalheiros românticos, tudo é motivo para sádica angustia alojar-se em nosso espírito. Os raios de sol que parecem cegar e queimar a pele; a noite gélida de todos os solitários a espera da mulher amada; a indecisão que paira sobre as possíveis ações (vou ao não vou?); o passado com gosto de infância; ao futuro incerto; a dor do mundo; a eterna ignorância da humanidade; os sonhos esmagados; a ofensa do melhor amigo, o grande amor da vida do mês; a nossa própria dor; aos desejos inalcançáveis; a todos e a ninguém. E todo esse sofrimento regido pelos segundos angustiastes, minutos esmagadores, horas intermináveis, do nosso ponteiro do relógio que produz um som ensurdecedor (tic-tac) aos nossos ouvidos e coração.
TIC-TAC; TIC-TAC; TIC-TAC; TIC-TAC; TIC-TAC; O ponteiro do relógio anuncia: São exatamente 12 horas. Já não somos tão jovens e agora lamentamos não ter vivido de forma autêntica e intensa no “auge” da nossa liberdade. Reclamamos diariamente o fato de termos entrados efetivamente para uma raça denominada pela história de adultos. Sentimos o fardo da responsabilidade e a não vida em função da morde diária para sobreviver. Olhamos para o mundo e não encontramos mais novidades. Ele envelheceu assim como nós! E não aprendemos com o mundo, assim como diz o dito popular, pois, a humanidade sonolenta ainda não lembrou que não deve esquecer um só segundo de viver! E essa última assertiva é sem dúvida o mais importante problema filosófico. Apesar dos homens medíocres infelizmente nem pensarem a respeito de tal questão. Não estou falando- aos que me prestam ouvido - das inúmeras teorias metafísicas, cosmológicas, cientifica que tentam incansavelmente justificar logicamente a gênese da mesma. A grande questão é: O que devemos fazer para que a vida ganhe sentido? Existe significado em tudo isso? Estamos fadados a cair em um abismo? Nossa existência pode ser reduzida ao que muitos temem, ou seja, a um niilismo absoluto? Essas questões sem sombra de dúvidas são questionamentos universais e ao mesmo tempo particulares. Pois, apesar de lermos no horóscopo, nos livros de auto-ajuda, nas cartomantes, nas sagradas escrituras e nos manuais tolos que acreditam equivocadamente ensinar a humanidade os possíveis modos de alcançar o reino da felicidade. Eu voz digo- assim, como os profetas incompreendidos- como toda minha insanidade: A felicidade não é um premio para todos os seus feitos gloriosos, mas, é o próprio modo como você encara a vida; a sua própria vida. Assim, não procure a chave do autoconhecimento- para que você possa efetivar na prática aquilo que você já é - nos outros e nas expectativas dos mesmos. Pois ninguém, ninguém mesmo, possui competência para responder aquilo que você deve fazer com a sua própria vida. A não ser você mesmo é claro!
TIC-TAC, TIC-TAC, TIC-TAC, TIC-TAC o ponteiro marca 5 horas da tarde. Você olha para dentro de si. O Senhor tempo e os seus filhos parece correr, os anos parecem voar. Você agora olha para trás, e pensa no tempo perdido, passando a fantasiar tudo aquilo que queria ter sorrido, cantado, dançado, vivido, mas, infelizmente, não sorriu, não cantou, não dançou e, muito menos, viveu.
TIC-TAC, TIC-TAC, TIC-TAC, o ponteiro marca 7 horas da noite. Você já possui cabelos brancos, um corpo fraco, um espírito velho, cansado, um cotidiano monótono e uma existência opaca. “Vive” agora narrando às “incríveis histórias” de um passado inautêntico, vazio, desprovido de forma, conteúdo, sem brilho e cor. Encenando o papel de um "velho sábio" que tem muito a ensinar a juventude que, provavelmente e infelizmente, irá cometer o mesmo erro que você: desperdiçar o precioso tempo, a preciosa vida.
TIC-TAC, TIC-TAC, já são 10 horas da noite. Você finalmente joga a toalha e desiste da vida, pois confunde o viver com ter uma existência longa e acredita, porque agora é um velho, que não se pode mais fazer nada (como se tivesse feito alguma coisa). Além disso, culpa o mundo, Deus, os homens, e o TEMPO. Aliás, o pouco tempo que você acredita que não teve para deixar sua marca para a posteridade. TIC-TAC são exatamente zero horas! As cortinas se fecham e a platéia nem assiste à peça. Que pode ser titulada: ENSAIO DE UMA VIDA. O mundo continua para os outros e você finalmente feneceu. Não porque a terra alimentou-se do seu corpo, mas porque você não viveu.
Assinar:
Comentários (Atom)
